Olho pro lado esquerdo da cama, vazia. Olho para a mesa de café da manhã e só vejo meu copo. Olho pro cinzeiro e só vejo meu cigarro aceso. Olho pro banheiro e só vejo uma escova de dentes. Olho pro armário e um lado completamente vazio. Sento, me concentro na respiração e entro em contato com o meu coração que por sinal, está cheio. Cheio de amor pra dar e cheio do amor que eu te dei. Boa parte do amor você levou quando se foi mas a outra parte ainda está aqui, pronta pra ser entregue a você pois você fez meu coração transbordar.
Lembra das plantas que você deu para a minha coleção? Apesar de cuidar direitinho estão murchas, tristes, escuras... Lembra das minhas orquídeas roxas compradas naquela floricultura pequenininha? Também estão murchando desde a sua partida. A sua cadeira de balanço de madeira anda rangendo, chorando muito pela sua ausência. Mas e eu? Ah, segundo você eu sempre cozinhei bem, né? Mas depois que você foi to errando a mão de sal, a quantidade de molho, botando açúcar na comida, queimando arroz. Até o passarinho que sempre te odiou não canta mais, anda tão tristinho...
Não sei o que está acontecendo comigo e com tudo aqui em casa, talvez seja o fato de estarmos encarando a solidão de uma forma bem crua. Talvez seja o fato de que desde o início de tudo foi sempre eu, você, o passarinho e os móveis antigos e agora seja só eu embalada na minha solidão juntamente com o passarinho e aqueles móveis que sempre achei toscos.
Mas que saudade que eu tenho de acordar de madrugada com medo de ir na cozinha sozinha por estar escuro e te acordar pra ir comigo. Saudade de assistir jogos do seu time e torcer mesmo eu sendo de outro time. Saudade dos velhos tempos.
Só saudade.
Aquela saudade.
De você.
De nós.
Da melodia do passarinho e das plantas vivas.
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